O HOMEM DE CONFIANÇA DO JORNAL CRUZEIRO DO SUL

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May 20, 2013 by suitandojornalistas

Em meio a 32 anos de atividade jornalística initerrupta, José Carlos Fineis é o responsável por refletir a opinião do veículo todos os dias, e conta quais são as dores e as delícias da profissão

“Ser editorialista é produzir um artigo de 3.800 caracteres, de segunda a segunda, com informações e argumentos muito bem estruturados, que reflitam a opinião do veículo sobre os mais variados assuntos”. Assim José Carlos Fineis define o cargo que ocupa atualmente na Fundação Ubaldino do Amaral (Sorocaba/SP), ao lado da editoração de livros, também da FUA. Somente nos últimos seis anos, foram concluídas cinco obras.

Em um currículo extenso, o profissional voltou à sua “casa” para desenvolver o trabalho atual. Antes mesmo de assumir em maio de 2006 como consultor editorial – que também é responsável pelas funções de ombudsman (interno), com críticas e observações sobre reportagens, elaboração de normas de redação e uniformização da linguagem -, o jornalista já estava acostumado ao ambiente, o qual lhe deu o pontapé inicial para a carreira. Sem formação universitária, Fineis conclui um curso técnico de redator auxiliar entre 1978 e 1980. Assim, adentrou na redação do jornal Cruzeiro do Sul, onde começou a trabalhar aos 18 anos de idade, como repórter. Segundo ele, na época, não havia curso de Jornalismo em Sorocaba, e a legislação previa, para municípios distantes das faculdades, a possibilidade de provisionamento, que era uma autorização temporária e renovável para atuar na área. “Fui provisionado no início da carreira e mais tarde consegui meu registro definitivo, nos termos da lei. Portanto, minha formação basicamente é a que tive no colegial, o que aprendi nos livros e, principalmente, no exercício diário da profissão”, diz.

Do jornalismo impresso a internet. Inúmeras experiências na área fizeram Fineis completar, em março deste ano, 32 anos de carreira.

Do jornalismo impresso a internet. Inúmeras experiências na área fizeram Fineis completar, em março deste ano, 32 anos de carreira

Depois dessa passagem, que durou 14 anos, o profissional se dedicou exclusivamente à Loja de Ideias, empresa que mantém com sua esposa, Sandra Nascimento. Em outubro de 2005, sem deixar sua loja, a qual ainda trabalha, assumiu a editoria do caderno Viva (arte e entretenimento), do Bom-Dia Sorocaba. Cerca de sete meses depois, voltou à FUA como assessor técnico, que incluía a chefia do Projeto Memória. Nos últimos dois anos, Fineis coordenou ainda a implantação da TV Jornal Cruzeiro do Sul (TV web).

Hoje, durante sua rotina na redação, que em média vai das 14h às 24h, Fineis “cumpre” um processo de criação. Para fazer um editorial ele indica, primeiramente, uma vivência muito grande, “um arsenal de informações e experiências que o jornalista reúne ao longo da vida, fundamental para referenciar esse tipo de texto. Preciso ler muito sobre os assuntos da atualidade, para ter uma visão geral de tudo o que ocorre em todos os setores, pois a cada dia comento um assunto diferente”, frisa. Em seguida, vem a definição do tema que fica por sua própria conta: “Tenho ampla liberdade para escolher. Posso abordar qualquer assunto que seja interessante para o leitor, sem restrições. Mas, antes, pesquiso muito, em fontes confiáveis. Faço contas, consulto leis, leio projetos. Às vezes, gasto mais tempo pesquisando do que escrevendo”, explica.

Nessa fase, Fineis lança sobre as abordagens uma visão que não seja apenas um lugar-comum, e jamais comenta algo sem defender uma opinião clara. “Gosto de ver o editorial como um texto que oferece uma opinião, mas sobretudo ajuda o leitor a compreender determinado assunto e formar, ele próprio, a sua. Por isso o texto geralmente traz a síntese dos fatos comentados”, revela.

No quarto passo a direção do jornal recebe um resumo sobre o que será publicado, logo no começo da tarde. Os diretores colaboram com opiniões e informações complementares. “Esse processo é muito enriquecedor, pois temos diretores que são médicos, engenheiros e advogados. Eles contribuem para tornar a análise mais correta e completa”, afirma e acrescenta que, com o texto encaminhado para seu fechamento, precisa, geralmente, gastar pelo menos uma hora revisando, checando informações, refazendo contas e achando os chamados “cacos”, palavras repetidas e frases confusas.

Mesmo com um trabalho exigente que, muitas vezes, ocupa quase que integralmente seu tempo, ele se realiza pela possibilidade de ter voz ativa e contribuir com ideias para a evolução das relações sociais. “Gosto de escrever, de aprender sobre todos os assuntos, de ter desafios. Mas, o que mais me seduz é mesmo a sensação de que aquilo que escrevo pode ajudar a melhorar a sociedade de alguma maneira”, confessa.

“Quem quer ser amigo de todos não presta para o jornalismo. Deve montar uma pastelaria e distribuir pastéis aos amigos”.

José Carlos Fineis

Além de tudo isso, o fardo da responsabilidade é grande. Ele admite que não pode cometer erros nem lançar análises superficiais ou precipitadas. Elas podem ser desastrosas para as pessoas atingidas e para a comunidade, além de comprometer a credibilidade do veículo e, é esse último ponto em que se deve ter a maior atenção. “É o pior castigo”, ressalta.

Dentre os vários textos que já produziu no editoral, ele garante não se arrepender de nenhum. Enquanto isso, na lista dos preferidos, ele opta por aqueles que se posicionam de maneira corajosa sobre assuntos que são tabus. “Ultimamente, gostei muito dos editoriais em que o jornal se posicionou francamente a favor do casamento gay, contra a redução da maioridade penal, contra a vergonhosa PEC 37 que retira o poder de investigação do Ministério Público, a favor da moralidade nas licitações de obras públicas”, elege. Para o jornalista, um texto recente que lhe proporcionou muita satisfação, tanto pelo resultado quanto pelos comentários que recebeu, foi sobre as meninas que eram acorrentadas pela mãe para não se envolverem com drogas e prostituição. “Gosto de refletir sobre comportamento e vida moderna”, argumenta. Clique aqui para acessar o texto citado.

Você, editorialista. Para se tornar esse profissional, para Fineis, deve-se preencher alguns quesitos, como:

  • Amar o jornalismo e acreditar que ele pode mudar o mundo em que vivemos;
  • Ter fé no ser humano e vontade de defender seus direitos, seja ele quem for, esteja onde estiver;
  • Crer que o infrator pode ser recuperado, que a corrupção pode ser vencida, que o esforço de todos os homens de bem pode transformar a água em vinho, a pedra em pão.
José Carlos Fineis responde atualmente pelo editorial do jornal Cruzeiro do Sul

José Carlos Fineis responde atualmente pelo editorial do jornal Cruzeiro do Sul

Dicas de ouro por José Carlos Fineis. “Minhas regras. Não quero impô-las a ninguém, mas é algo que funciona para mim”.

1) Ler e pesquisar muito, conhecer todos os ângulos do tema que se vai abordar;

2) “Pensar fora da caixa”. Fazer um esforço verdadeiro para enxergar o assunto por um prisma que não seja apenas um lugar-comum. Trazer um olhar diferente para o tema;

3) Abrir o texto com uma afirmação clara, direta, conclusiva. Nada de deixar as conclusões para o último parágrafo;

4) Usar os 3.800 caracteres para sintetizar e encadear os principais argumentos de forma objetiva, sem rebuscamentos;

5) Buscar a elegância da linguagem e até um certo lirismo, quando houver margem para isso. Não usar de ironia ou afirmações dúbias que possam ser mal-entendidas;

6) Falar sem rodeios o que precisa ser dito. Ser contundente quando necessário. Não buscar subterfúgios para “sugerir” aquilo que se quer dizer, mas dizer;

7) Ser justo. Criticar as ações, não as pessoas. Ter sempre em mente que se está lidando com o trabalho de alguém, com a crença de alguém, com as convicções de alguém;

8) Não ter receio de fazer inimizades. Quem quer ser amigo de todos não presta para o jornalismo. Deve montar uma pastelaria e distribuir pastéis aos amigos;

9) Ser humilde para reconhecer os erros e as limitações. Respeitar a opinião do outro e evitar truculências verbais. Os argumentos devem convencer, não agredir;

10) Pautar as análises, sempre, pela ótica do interesse coletivo, da legalidade, da moralidade, da correção, da ética;

11) Não ter dois pesos e duas medidas. O que vale para um, deve valer para outro. A coerência é fundamental para o editorial ser respeitado;

12) Não querer ser o dono da verdade. A opinião do jornal não deve tentar se impor nem calar as opiniões contrárias. Ela deve, antes, ser um subsídio para que o leitor forme sua própria opinião;

13) Estar na vanguarda do pensamento social. Combater os preconceitos, as discriminações, os privilégios; defender uma sociedade justa e fraterna;

14) Buscar uma reflexão também sobre temas do cotidiano. Assuntos que podemos julgar corriqueiros podem dar excelentes editoriais;

15) Procurar sempre uma grande sacada, que ninguém ainda teve. É preciso muita observação e reflexão para isso;

16) Evitar títulos repetitivos como “Tragédia anunciada” ou “Sorocaba, a bola da vez”;

17) Imprimir o texto, revisá-lo no papel duas ou três vezes, fazer as alterações no computador, revisar mais duas ou três vezes. Jamais revisar menos que cinco vezes. Uma boa revisão pode salvar um texto fraco, num daqueles dias menos inspirados;

18) Não ter receio de cortar parágrafos inteiros, mesmo que eles tenham custado um bom tempo para ser escritos, se chegar à conclusão de que isso tornará o texto melhor.

De Fineis para nós. “Gostaria que todos os jovens que estudam jornalismo tivessem em mente algumas coisas que aprendi nesses 32 anos e alguns meses. A principal delas é que não se fica rico nesta profissão, por isso é preciso amá-la de verdade, para não se tornar depois uma pessoa pobre e amarga, que reclama por ter de escrever ou trabalhar nos plantões. Outra coisa é que nossa profissão está se transformando, jornais estão fechando e as redações diminuindo, o que gera uma ansiedade grande em todos, mas acredito que muitas portas estão se abrindo e precisamos ter olhos para enxergá-las. A internet tem sido apontada como grande vilã, principalmente para os jornais impressos, mas ela é valiosa por muitos motivos, inclusive porque democratiza o acesso à produção e difusão de informações. O jornalismo jamais deixará de existir, porque as pessoas precisam de informações bem apuradas e construídas com seriedade. A maior ameaça ao jornalismo, hoje, não parte da internet nem dos jornalistas sem diploma como eu, mas do próprio jornalismo, na medida em que ele se distancia das grandes causas sociais, das grandes reportagens e dos assuntos de interesse universal para falar de banalidades e noticiar fofocas sobre artistas. A solução para o jornalismo está nele mesmo, na sua capacidade de descortinar realidades desconhecidas para o público, de elucidar os fatos, de instruir. O jornalismo precisa ser resgatado como ferramenta social, como instrumento de construção de uma sociedade melhor, mais justa e evoluída. Vamos tirar o jornalismo da linha de shows e recolocá-lo em seu devido lugar, que é um lugar nobre. Jornalismo é mais do que fofoca e entretenimento. É coisa para gente séria e comprometida!”.

Crédito fotos: Divulgação

Crédito texto: Luma Bonvino

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One thought on “O HOMEM DE CONFIANÇA DO JORNAL CRUZEIRO DO SUL

  1. Eloy de Oliveira says:

    Parabéns pela reportagem com o grande José Carlos Fineis. Reúnem-se aqui valiosas dicas de um profissional extremamente comprometido com o jornalismo. Além disso, o texto produzido ficou muito gostoso de ler.

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